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O primeiro post do Conto do Galo data do dia 02 de Junho desse ano, contendo os detalhes sobre a proposta do blog, que se comprometia a publicar textos de colegas blogueiros ao lado dos meus próprios, tudo através da correspondência por e-mail para o ce.coletti@hotmail.com. Era uma proposta que queria mostrar o quão criativa pode e deve ser a blogosfera, para mostrar que havia coisas boas em meio a um mar de mesmice.

 

Foram-se três meses, o blog mudou de template e ganhou a adição de vários colaboradores, aos quais sou sempre profundamente grato, mas a porposta ainda era a mesma no último post, um texto de minha autoria que marcava a primeira formação de uma série de histórias dentro do blog. Mostrar que novidade e talento tem espaço nesse mundo estranho dos blogueiros foi a missão que foi cumprida e continuará a ser.

 

Pois bem, valeu a pena. Coloquei textos meus e de outros a prova com a esperança de que fossem notados, e vocês responderam a altura. Como foi bom ler seus comentários. Fiz amigos por causa desse blog, criei contatos que não podem e não vão se perder apenas porque essa parte da minha vida de blogueiro está chegando ao fim. Esses são os últimos parágrafos que serão publicados no Conto do Galo, e ainda assim me recuso a achar que estou me depedindo de alguma coisa. Porque a missão ainda continua.

 

O Anagrama é o nome do blog onde estarão a partir de hoje reunidos meus meus textos, somados a outros assuntos que são do meu interesse e, eu espero sempre, do seu também. A proposta continua de pé para os autores associados ao Conto do Galo, para continuarem a mandar seus textos, que serão publicados no Anagrama. A nossa conversa não termina por aqui. Nos vemos, sempre.

 

As melhores leituras para todos vocês e até mais!

- “A cicatriz não incomodara Harry nos últimos dezenove anos. Tudo estava bem” – As Relíquas da Morte (J.K.R.)

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Memento Mori - Um prelúdio para "De Volta" - Parte I, por Caio Coletti


Lá fora, a escuridão era absoluta. Mesmo a luz das estrelas parecia apagada aos olhos dele, que procuravam incessantemente por uma nova razão para brilhar. Sozinho, sem rumo, sem destino e sem expectativas. Não havia nada além dele e aquele imenso vácuo que se estendia para o infinito do outro lado do vidro da nave que o levara para onde sempre quisera estar. Vivera uma vida para chegar aquele lugar, desbravando o que ninguém mais conhecia, e agora era capaz de entregar a sua para voltar para casa. Mas não podia. Não mais.

 

Como fora tolo, passando pelo ponto definitivo com a cabeça erguida e os pensamentos em glórias futuras, esquecendo-se do passado que deixou para trás e não assimilando o fato que, se seu nome seria colocado nos livros de história da Terra, ele não estaria lá para lê-los. De repente, a recompensa que era doce se tornou amarga. Aquele não era mais o seu lugar, queria estar ao lado de quem amava de verdade e não contemplando aquela escuridão infinita. Agora era Dorothy, levado para longe por um furacão de equívocos, mas não havia nenhuma estrada de tijolos amarelos para seguir, tampouco um mágico para encontrar no fim do caminho. Não bastava dizer que "o melhor lugar do mundo é o nosso lar". Não para ele, ao menos.


Estava condenado a morrer ali, sozinho, sem a oportunidade de se despedir ou pedir desculpas, sem o momento de redenção que era direito de todo o ser humano. Ele vira filmes o bastante para ter idealizado seu momento final. Mas agora não via nada disso acontecendo. Nem no presente, nem no futuro. Talvez fosse melhor apenas acabar logo com o sofrimento. Complementar o escuro do espaço e se tornar a peça de vida inútil que já era há algum tempo. Vagando sem esperança, sem vontade e sem destino. Tentara descobrir os enigmas do universo, e agora seria engolido por eles, sem sequer entendê-los. Chegava a ser poético, simbólico. Se apenas alguém naquele planeta pequeno ficasse sabendo. Pior do que morrer sem terminar sua missão, ele morreria ainda sem poder dizer ao mundo que não valia a pena. Quantos mais se perderiam como ele?


Uma lágrima rolou daqueles olhos frios. Solitária como o homem do qual havia saído, manchando um rosto tomado por melancolia incurável. Ele, mãos tremendo dentro do traje branco, estendeu o braço para uma arma comum, que descansava no banco vazio do co-piloto. Aquilo não deveria estar ali, mas ele tinha experiência o bastante para conhecer as falhas na segurança da NASA. Não sabia porque a trouxera, mas agora via o quanto podia lhe ser útil. Examinou-a por um momento, checando o cartucho e vendo a dezena de balas ali alojadas. Apenas uma seria o bastante. Apontou o cano para a cabeça, agora tremendo incontrolavelmente. Fechou os olhos para segurar as lágrimas que queriam sair. Se ninguém saberia, ao menos ele morreria como um homem. Sempre achara essa convenção uma besteira imensa. Agora, via o quanto um pouco de dignidade fazia bem para um homem a beira da morte.


Aos poucos, começou a puxar o gatilho da arma, os olhos fixos no horizonte escuro lá fora, se perguntando mentalmente o que poderia haver aguardando-o para além daquelas e mais outras estrelas. Sonho antigo. Não fazia sentido agora. Nada fazia. Quase podia sentir o disparo. O escuro era sufocante. Era o fim. Ou não, talvez apenas o começo. Foi quase como um flash, quase como se estivessem tirando-lhe uma indigna e terminal foto, mas foi muito, muito mais forte. Luz, intensa e brilhante. Ele abriu bem os olhos, que queimavam. Apertou o gatilho. Lá fora, a nave sumia em um clarão, deixando a escuridão e as estrelas sozinhas em seu pavilhão.


CONTINUA...

black hole

Bom, pessoal, essa é a primeira continuação para um texto aqui do blog que eu ouso escrever, para quem não conheceu o texto original está logo aí embaixo, então esperam que tenham gostado, mesmo porque eu deixei o final aberto para uma segunda e conclusiva parte desse prelúdio. Só preciso mesmo agradecer ao V, que me deu a idéia de continuar (ou esclarecer) essa história, me lemvou por um bom caminho. Enfim, portanto é só. Boas leituras para todos vocês. Ah, e aproveitem o layout novo!

De Volta, por Caio Coletti

 

Ele só queria sair dali. As paredes francas na sala fechada por vidros espelhados, uma discreta porta em um dos cantos, tudo lhe era familiar demais, pequeno demais. O que ele queria ver, sentir agora... era o mundo. Seu mundo. Depois de tanto tempo observando a escuridão do espaço, tudo o que ele poderia desejar era sentir o vento bater-lhe no rosto novamente. Mas não podia.

Lançou um olhar de esgueio para o grande espelho atrás do qual, ele sabia, os hipócritas da NASA discutiam seu caso. Mal pusera o pé em terra firme pela primeira vez em anos, fora informado que tinha “um problema de vida ou morte”. E, agora, lá estava ele, preso. Nem mesmo haviam lhe perguntado se ele desejava lutar contra aquele mal tão terrível que o atacara. Claro, não haviam visto o que ele vira, não haviam estado naquela nave, ao lado dele.

Fechou os olhos. Lembrou-se do Sol que quase o segara quando a porta principal da nave havia se aberto, pouco tempo atrás. Lembrou-se de seu abençoado calor. E, de repente, o sentia de verdade. Abriu os olhos, mas precisou de alguns minutos para efetivamente enxergar. O Sol brilhava forte para aquele admirável mundo novo. Partira já há tanto tempo que se esquecera do quão encantador era observar o sorriso daquelas crianças, que brincavam a sua frente. Daqueles casais que andavam de mãos dadas e trocavam confidência. Era um mundo perfeito. Demais.

Tentou puxar o ar e não conseguiu. Olhou para baixo a tempo de ver uma gota de algo estranho caindo da ponta de seu dedo estendido para o chão. Sentiu a pele inconsistente, como se prestes a se desprender da carne. Estava derretendo. Foi capaz de sorrir, apesar de tudo. Afinal, estivera de volta, ainda que por breves momentos. Levantou o rosto para o Sol. Fechou os olhos.

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Sobre o Conto do Galo

O Conto do Galo é um blog de contos, crônicas, reflexões e opiniões, mas não é o blog de uma só pessoa. A proposta principal aqui, para além de publicar meus próprios textos, é dar a chance a quem tem talento de ganhar um pouco mais de visibilidade, mesmo que essa pessoa já tenha um certo número de pessoas que conhecem seu trabalho. Publicar textos, dando o devido crédito, a gente que merece esse espaço para se expressar. É um espaço livre para opiniões, dissertações e tudo o mais. Espero contar com o apoio de todos vocês nessa nova empreitada!

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