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Memento Mori - Um prelúdio para "De Volta" - Parte I, por Caio Coletti


Lá fora, a escuridão era absoluta. Mesmo a luz das estrelas parecia apagada aos olhos dele, que procuravam incessantemente por uma nova razão para brilhar. Sozinho, sem rumo, sem destino e sem expectativas. Não havia nada além dele e aquele imenso vácuo que se estendia para o infinito do outro lado do vidro da nave que o levara para onde sempre quisera estar. Vivera uma vida para chegar aquele lugar, desbravando o que ninguém mais conhecia, e agora era capaz de entregar a sua para voltar para casa. Mas não podia. Não mais.

 

Como fora tolo, passando pelo ponto definitivo com a cabeça erguida e os pensamentos em glórias futuras, esquecendo-se do passado que deixou para trás e não assimilando o fato que, se seu nome seria colocado nos livros de história da Terra, ele não estaria lá para lê-los. De repente, a recompensa que era doce se tornou amarga. Aquele não era mais o seu lugar, queria estar ao lado de quem amava de verdade e não contemplando aquela escuridão infinita. Agora era Dorothy, levado para longe por um furacão de equívocos, mas não havia nenhuma estrada de tijolos amarelos para seguir, tampouco um mágico para encontrar no fim do caminho. Não bastava dizer que "o melhor lugar do mundo é o nosso lar". Não para ele, ao menos.


Estava condenado a morrer ali, sozinho, sem a oportunidade de se despedir ou pedir desculpas, sem o momento de redenção que era direito de todo o ser humano. Ele vira filmes o bastante para ter idealizado seu momento final. Mas agora não via nada disso acontecendo. Nem no presente, nem no futuro. Talvez fosse melhor apenas acabar logo com o sofrimento. Complementar o escuro do espaço e se tornar a peça de vida inútil que já era há algum tempo. Vagando sem esperança, sem vontade e sem destino. Tentara descobrir os enigmas do universo, e agora seria engolido por eles, sem sequer entendê-los. Chegava a ser poético, simbólico. Se apenas alguém naquele planeta pequeno ficasse sabendo. Pior do que morrer sem terminar sua missão, ele morreria ainda sem poder dizer ao mundo que não valia a pena. Quantos mais se perderiam como ele?


Uma lágrima rolou daqueles olhos frios. Solitária como o homem do qual havia saído, manchando um rosto tomado por melancolia incurável. Ele, mãos tremendo dentro do traje branco, estendeu o braço para uma arma comum, que descansava no banco vazio do co-piloto. Aquilo não deveria estar ali, mas ele tinha experiência o bastante para conhecer as falhas na segurança da NASA. Não sabia porque a trouxera, mas agora via o quanto podia lhe ser útil. Examinou-a por um momento, checando o cartucho e vendo a dezena de balas ali alojadas. Apenas uma seria o bastante. Apontou o cano para a cabeça, agora tremendo incontrolavelmente. Fechou os olhos para segurar as lágrimas que queriam sair. Se ninguém saberia, ao menos ele morreria como um homem. Sempre achara essa convenção uma besteira imensa. Agora, via o quanto um pouco de dignidade fazia bem para um homem a beira da morte.


Aos poucos, começou a puxar o gatilho da arma, os olhos fixos no horizonte escuro lá fora, se perguntando mentalmente o que poderia haver aguardando-o para além daquelas e mais outras estrelas. Sonho antigo. Não fazia sentido agora. Nada fazia. Quase podia sentir o disparo. O escuro era sufocante. Era o fim. Ou não, talvez apenas o começo. Foi quase como um flash, quase como se estivessem tirando-lhe uma indigna e terminal foto, mas foi muito, muito mais forte. Luz, intensa e brilhante. Ele abriu bem os olhos, que queimavam. Apertou o gatilho. Lá fora, a nave sumia em um clarão, deixando a escuridão e as estrelas sozinhas em seu pavilhão.


CONTINUA...

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Bom, pessoal, essa é a primeira continuação para um texto aqui do blog que eu ouso escrever, para quem não conheceu o texto original está logo aí embaixo, então esperam que tenham gostado, mesmo porque eu deixei o final aberto para uma segunda e conclusiva parte desse prelúdio. Só preciso mesmo agradecer ao V, que me deu a idéia de continuar (ou esclarecer) essa história, me lemvou por um bom caminho. Enfim, portanto é só. Boas leituras para todos vocês. Ah, e aproveitem o layout novo!

1 comentários:

Oi Caio! Eu que tenho de agradecer que vc tenha seguido o meu pedido: e esse finalzinho ambíguo do texto novo... Me fez pensar uma coisa estranha: se a estrela não tivesse explodido, mas o astronauta tivesse puxado o gatilho (e acertado, vc não disse se ele acertou XD), também a estrela deixaria de existir. Qual a razão de ter uma luz se ninguém está lá para ver? Ainda vou escrever sobre isso...

E vi seu comentário lá no Adiante!. Puxa, eu pensei que ninguém voltava no histórico pra ler o que ficava para trás... Tava enganado: pode publicá-los sim, o prazer é meu!

(:

Sobre o Conto do Galo

O Conto do Galo é um blog de contos, crônicas, reflexões e opiniões, mas não é o blog de uma só pessoa. A proposta principal aqui, para além de publicar meus próprios textos, é dar a chance a quem tem talento de ganhar um pouco mais de visibilidade, mesmo que essa pessoa já tenha um certo número de pessoas que conhecem seu trabalho. Publicar textos, dando o devido crédito, a gente que merece esse espaço para se expressar. É um espaço livre para opiniões, dissertações e tudo o mais. Espero contar com o apoio de todos vocês nessa nova empreitada!

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