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Amor, tirano amor, por Bruno

Todos zanzavam e sussurravam pela sala de jantar. Como baratas tontas que não encontram uma direção certa. Procuravam a melhor maneira de informar ao seu líder um acontecimento terrível.

A governanta chama por sua ama pela manhã. Preocupada após inúmeras batidas na porta e nenhuma resposta vinda do quarto, ela provavelmente força a fechadura e encontra o corpo no chão, com uma arma caída ao seu lado e o rosto levemente virado para a direita em meio ao sangue. Apavorada, corre em direção aos poderosos do Império informando-os da tragédia. Aqueles homens parrudos, munidos de mausers esbanjando segurança, agora tremiam as pernas.

De repente todos se silenciam. Um sujeito baixo adentra o cômodo. É Joseph Stálin, líder supremo da União Soviética, o Comissário do Povo que dormia no quarto ao lado, o motivo da apreensão daqueles que ali estavam. Foi Ienukidze, seu velho amigo, que lhe deu a notícia quase num súbito desesperado: "Ióssif, Ióssif, Nádia está morta!". Nádia era a esposa de Stálin que havia se suicidado horas antes no seu quarto.

O homem de aço

Aquele homem com "olhos negros brilhantes", com marcas de varíola no rosto, e o braço esquerdo quase paralisado pela vida clandestina de agitador marxista e gângster georgiano, era o responsável direto por 25 milhões de mortes causadas por sua política de colheita na Ucrânia e os expurgos que fuzilaram seus antigos amigos bolcheviques num surto de paranóia sem precedentes. Com as costas curvas, como se suportasse o peso do mundo, em meio a ataques de raiva contra seus próximos e sentimentos de culpa que beiravam o desespero, o homem de aço caiu em profunda tristeza. Em suas mãos estava a pistola que tirou a vida de sua esposa. Arrasado, murmurava ao observar seu corpo.

Nádia provavelmente não suportara conviver com Stálin, homem devotado à política e negligente à família que cultivava um egotismo sufocante àqueles que com ele conviviam. Nádia também não era mulher fácil de se dar, capaz de deixar o czar vermelho encolhido num canto do banheiro enquanto ela tinha mais um de seus ataques de raiva. Tempos atrás, foi a jovem esposa de Stálin, Kató, que sucumbiu diante a fraqueza com apenas 22 anos, deixando o futuro líder dos países socialistas sem rumo e despedaçado.

Há quem diga que essas duas tragédias forma cruciais para a vida de Stálin. Kató, sua primeira esposa, transformou seu coração em pedra quando faleceu; Nádia, por sua vez, fez com que após sua morte os "tempos felizes" no Kremlin chegassem ao fim. Stálin quer desistir de tudo, aquela fonte de energia inesgotável está moribunda, desejosa por um fim. "Não chore papai", disse Vassíli, filho de Stálin, ao segurar aquela mão que lhe deu pouco afeto e destruiu sua família por sua vida política.

Historiadores não gostam de uma leitura que aproxime os tiranos dos outros mortais, parecem se assustar com a proximidade de seus pensamentos com as ideologias que germinam na sociedade ou que reascendem com o passar do tempo. Quão simples aqueles desprovidos de humanidade. Seus atos terríveis contra seus povos estão longe de ser atribuídos a seres insensíveis ao sentimento das massas. Monstros são homens, e apresentam o lado mais obscuro que o fanatismo, tão próximo a nós, pode chegar. Numa longa estimativa, quando consentimos com homens dessa estirpe, também somos monstros.

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Bruno é autor do blog Temporário, no qual publica seus pensamentos e reflexões com sólidas referências históricas e poesia singular nas dissertações. É também, a partir de hoje, o segundo colaborador externo do Conto do Galo.

Menina do balaio, por Vinícius Neves

Ela andava tão tranquilamente.
Estava ali, na minha frente, talvez a uns cem passos de distância. Eu podia sentir o cheiro dos seus cabelos.
Seus vestido era branco, do mais puro algodão, cabelos castanhos e ondulados, a pele branca, nenhum traço em especial, era uma garota comum, simples, mas pra mim ela exalava algo que só meu coração soube sentir.

Ela andava e sorria, sorria e andava.
E eu a amava e a via, a via e amava.
Ela carregava um balaio no braço direito, e ia colhendo flores no meio do caminho, em direção à um grande eucalipto.
O vento soprava de leve sobre seu corpo delicado, e ela dançava descalça com ele, se emaranhando entre folhas e raios de um inicio de final de tarde.
Estava um clima gostoso, o sol tinha sido gentil em ceder apenas o calor necessário. Até hoje acredito que ele a fitava da mesma forma que eu.

Quando ela chegou perto do eucalipto, passou levemente seus dedos com carinho ao seu redor e sentou ao seus pés. Pensativa, dobrou o joelho sobre o peito e apoiou o braço esquerdo ali, deixando o balaio de lado, e apoiou o seu queixo em cima de sua mão esquerda, olhando o mais longínquo e profundo possível para o horizonte. Com um olhar distante abaixou o rosto entre as pernas e começou a soluçar em pleno pranto.
De onde eu estava, senti meu pé grudar firmemente no chão e o outro a querer seguir sua direção, em direção ao balaio, das flores, da sombra do eucalipto, dela.
Ela me viu com o canto do olho, enxugou as lágrimas, e me deu o sorriso mais lindo que eu já vira em toda a minha vida e me disse quando cheguei mais perto:

- As flores são pra lembrar que a felicidade é como elas, são belas, são agradáveis, podem morrer, mas sempre se pode plantar novamente. Quando olhei longe no horizonte, é pra lembrar que tenho um futuro inteiro pela frente. O eucalipto é meu lugar de descanso, aqui eu posso contar tudo pra ele, que ele não vai me julgar, não vai dar palpite, vai simplesmente estar do meu lado me dando sombra, às vezes é só disso que a gente precisa.
- E a dança?

Sorrindo a garota respondeu:
- A dança não tem um significado específico, eu poderia ir correndo e chorando até o eucalipto, mas preferi ir dançando e colhendo flores - que são como o amor; a dança foi só pra dar mais ênfase que mesmo com os problemas, ainda posso fazer da vida uma eterna e graciosa arte.

Vinícius Neves é o autor do blog A Vingança Sorridente do Jack, onde publica seus pensamentos, contos e textos em geral, e o primeiro colaborador externo do Conto do Galo.

Sobre o Conto do Galo

O Conto do Galo é um blog de contos, crônicas, reflexões e opiniões, mas não é o blog de uma só pessoa. A proposta principal aqui, para além de publicar meus próprios textos, é dar a chance a quem tem talento de ganhar um pouco mais de visibilidade, mesmo que essa pessoa já tenha um certo número de pessoas que conhecem seu trabalho. Publicar textos, dando o devido crédito, a gente que merece esse espaço para se expressar. É um espaço livre para opiniões, dissertações e tudo o mais. Espero contar com o apoio de todos vocês nessa nova empreitada!

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